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cidade · Rio de Janeiro

O skate voltou a dominar a orla do Rio — e o algoritmo percebeu antes da imprensa

Por Thiago Ribeiro ·

Atualizado em

De Arpoador a Madureira, pistas e calçadas viraram palco de cenas que explodem no Reels. A gente foi atrás de quem filma, quem anda e quem monta o encontro — e descobriu que a orla carioca voltou a ser laboratório visual antes de virar manchete.

Ilustração de skatistas na orla com cores tropicais

Na última quinzena de maio, um vídeo de quinze segundos rodou mais no Instagram do que qualquer release sobre revitalização da orla. Nele, quatro skatistas descem o calçadão de Ipanema no fim da tarde, câmera na mão, som de pagode distante e legenda simples: "isso aqui é Rio". Não tinha patrocínio, não tinha marca de tênis em destaque — só movimento, luz e calçada.

O Tropica acompanhou três fins de semana seguidos entre Arpoador, Praça Mauá e a pista de Madureira. O que apareceu foi menos "volta do skate" no sentido nostálgico e mais uma cena reorganizada: jovens que cresceram com TikTok usando a cidade como cenário, grupos de filme amador trocando dica de ângulo e veterano da pista ensinando manobra pra quem nunca pegou shape antes da pandemia.

Quem está na calçada

Marina, 24, mora em Copacabana e trabalha como editora freelance. Ela começou a filmar o grupo do Leme porque "a luz das cinco da tarde faz qualquer manobra parecer clipe". O perfil dela, @orlaemmovimento, ganhou seis mil seguidores em três semanas — número modesto perto de influencer tradicional, mas com engajamento alto: comentários pedindo localização, horário e se pode levar criança pra assistir.

Do outro lado da cidade, em Madureira, o cenário é outro. A pista de concreto atrás do shopping virou ponto de encontro de crianças e adolescentes depois que a prefeitura pintou as bordas e instalou lixeira. O skatista veterano Raul, 38, conta que "antes era só gente da quebrada que sabia que existia". Agora, todo sábado, aparece carro de som baixo, marmita e pai filmando o filho de oito anos no penny board.

"A orla não é só cartão-postal. É pista, é palco, é lugar de trabalho pra quem vive de imagem. O algoritmo entende isso antes da redação de jornal."

Algoritmo, estética e a cidade como cenário

Conversamos com cinco criadores de conteúdo entre 19 e 28 anos que postam skate no Rio. Todos disseram a mesma coisa com palavras diferentes: o algoritmo do Reels e do TikTok privilegia movimento contínuo, céu aberto e contraste de cor — exatamente o que a orla oferece de graça.

Isso não significa que todo vídeo viraliza. Marina explica que testa horários: "Postei a mesma manobra às onze da manhã e às cinco da tarde. O da tarde performou quatro vezes mais." Outro criador, Pedro, de Ramos, montou série chamada "Zona Norte no shape" justamente pra fugir do eixo Zona Sul–centro que domina o imaginário visual da cidade.

Para socióloga Paula Menezes, da UFRJ, o fenômeno conversa com algo maior: "Há uma geração que aprendeu a ler a cidade pelo celular. O skate sempre ocupou espaço público de forma disputada; agora essa disputa também passa pelo feed."

O que muda na prática

Comerciantes da orla notam diferença. Barraca de coconut na altura do Posto 6 disse que vê mais gente parada filmando do que apenas atravessando. Já guardadores de bicicleta em Copacabana reclamam de manobra perto do quiosque — "não é contra o moleque, é contra quem filma sem olhar pro lado", resumiu Seu Jorge, 61.

A prefeitura não tem programa específico para skate na orla, mas reconheceu em nota que "atividades esportivas em espaço público seguem regras de convivência". Na prática, o que organiza o fluxo são os próprios grupos: nos encontros que vimos, sempre tinha alguém segurando entrada de pedestre e outro avisando quando vinha bicicleta de delivery.

Em Arpoador, o pico do fim de tarde continua sendo disputado entre surfistas e skatistas. A solução improvisada da galera: skate até dezoito horas, depois desce o shape e sobe o bodyboard. Funciona porque ninguém formalizou — e talvez por isso ainda funcione.

Pra onde isso vai

Não estamos diante de uma "nova mania" que some em agosto. O skate no Rio nunca foi embora de verdade; o que mudou é a visibilidade e quem controla a narrativa visual. Criadores locais estão no comando do recorte, e isso altera como o resto do país imagina a cidade.

Se você mora no Rio, provavelmente já viu alguma dessas cenas. Se mora longe, o feed pode ser sua única janela — e é por isso que vale prestar atenção no que fica de fora do enquadramento: a rampa improvisada, o ônibus atrasado ao fundo, a tia vendendo água no mesmo plano do kickflip.

A gente volta a esse assunto quando a prefeitura anunciar — ou não — novas áreas de convivência esportiva na orla. Até lá, o melhor mapa continua sendo o Stories de quem está na calçada.